Por Fernando Bueno
Todos sabem que o motivo da rivalidade entre Metallica e Megadeth é o fato de Dave Mustaine ter sido demitido por Lars e Hetfield pouco tempo antes da banda gravar Kill ‘Em All (1983). Criar o Megadeth e lutar por seu sucesso foi a maneira que Mustaine encontrou para se vingar da dupla. Aqui no Brasil também tivemos uma história parecida, já que a conhecida rivalidade entre Sarcófago e Sepultura foi gerada por motivos semelhantes.
Após uma briga entre os integrantes do Sepultura em meados de 1985, o guitarrista e vocalista Wagner Lamounier, que na época usava a alcunha de Wagner Antichrist, foi convidado a ser retirar. Muita gente acha que, a exemplo de Mustaine, Wagner criou o Sárcofago com intenção de vingança, entretanto, o Sarcófago já existia, e tinha em Gerald Minelli, então Gerald Incubus, seu mentor. Com a entrada de Wagner, Gerald encontrou o parceiro ideal para o crescimento da banda.
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A Coletânea Warfare Noise I |
Pouco tempo após o ingresso de Wagner, a banda participou, com as faixas “The Black Vomit” e “Satanas”, de uma coletânea da Cogumelo Records (a mesma do Sepultura na época), Warfare Noise I (1986), e gravaram ainda nesse ano o álbum I.N.R.I., que é hoje em dia considerado como um dos melhores e mais influentes registros do death/black metal, inclusive citado pela grande maioria das bandas que fizeram parte do movimento black metal norueguês como uma de suas maiores influências. Grande parte dos fãs considera I.N.R.I. o disco mais importante da história do Sarcófago, porém, talvez por não ser um aficionado pelo estilo e não conhecê-lo profundamente, essa honra tem que ficar, na minha opinião, com The Laws of Scourge. Não apenas o considero o melhor álbum do grupo mineiro, mas também um dos meus discos preferidos no metal nacional.
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Capa de I.N.R.I. em seu relançamento de 1992 |
Na época do lançamento de I.N.R.I., o Sarcófago utilizava uma imagem bastante carregada, incluindo corpse paint, crucifixos invertidos, muito couro preto e braceletes pontiagudos. Hoje em dia, ao olhar as fotos da época, não nos surpreendemos com esse visual, afinal, as bandas que praticam os gêneros mais extremos do heavy metal estão continuamente acrescentando itens a esse visual. Contudo, na época isso chocava bastante, mesmo no meio dos headbangers. A capa do segundo álbum do grupo, Rotting (1989) chegou a ser censurada nos Estados Unidos. Toda essa imagem combinava perfeitamente com seu som pesado e extremo, algo que agradou a uma grande parcela dos fãs de heavy metal.
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Rotting (1989) |
No início o grupo sofreu diversas mudanças de formação, mas mantendo junta a dupla Wagner e Gerald. No debut, contavam ainda com outro guitarrista, Zéber “Butcher”, além do baterista Eduardo “D.D. Crazy”. Para o álbum seguinte, Rotting, a banda se transformou em um trio, e o posto de baterista foi assumido por Manu “Joker”.
O som apresentado emRotting é de certa forma uma continuação do que a banda havia feito emI.N.R.I., mas quando todos esperavam uma evolução em conjunção com a pancadaria que foram esses discos, a banda lançou The Laws of Scourge, dotado de músicas mais trabalhadas e menos velozes se comparadas aos outros registros, além de produção e gravação bastante superiores às dos anteriores. Talvez essa seja uma das melhores gravações do selo Cogumelo. Muitos fãs torceram o nariz, já que até mesmo o visual da banda foi modificado, com a eliminação do corpse paint e o abandono dos pseudônimos, mas mantendo as roupas de couro. Por outro lado, o disco angariou muitos outros fãs para o grupo. Novamente o álbum trouxe um line-up diferente, com a substituição de Manu “Joker” por Lúcio Olliver na bateria e o acréscimo de outro guitarrista, Fábio Jhasko. Não é possível determinar se a inclusão desses componentes teve muita influência no novo estilo musical, ou se as mesmas já estavam compostas antes da entrada deles.
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Foto da contracapa de The Laws of Scourge |
Sempre relaciono a sonoridade desse álbum à do
Schizophrenia (Sepultura). Talvez seja por ter sido gravado pelo mesmo selo ou pelo simples fato de ambas as bandas estarem ouvindo as mesmas coisas na época. “
The Laws of Scourge” abre o disco, seguida por “Piercings” e “
Midnight Queen”. Essa trinca inicial é matadora, com destaque para a faixa-título e para essa última. Aliás, foi por causa de “Midnight Queen” que me tornei fã. Possuía essa faixa, juntamente com outras duas, em uma fita cassete que um amigo certa vez esqueceu em minha casa e acabei nunca mais devolvendo. Esse cassete continha Anthrax e Sarcófago, além de outra banda que infelizmente nunca mais consegui identificar. Essas três músicas do Sárcófago eram, até então, as mais pesadas que já havia escutado, e me chamaram muito a atenção. A introdução de “Midnight Queen” com um dedilhado sombrio acompanhado de uma linha de teclado não menos sombria estabelece o clima perfeito para a pancada que é o riff de guitarra que inicia a canção. Sua letra lembra um pouco a história contada no livro Christiane F., a respeito de uma adolescente viciada em drogas e que tem na prostituição a última opção para a sobrevivência.

O álbum conta com apenas sete faixas, sendo uma delas “The Black Vomit”, que já havia sido gravada na coletânea
Warfare Noise I. Nunca ouvi a versão original, mas a que está presente em
The Laws of Scourge também é um dos destaques. Para quem adquiriu mais recentemente esse disco em CD (ou para quem pretende adquirir) notará que este possui duas outras faixas, “
Crush, Kill, Destroy” e “Little Julie”. Essas duas músicas foram inicialmente lançadas no EP
Crush, Kill, Destroy, em março de 1992. O lançamento continha essas duas canções, além de duas outras músicas egressas de
The Laws of Scourge, remasterizadas.
Depois do enorme sucesso do álbum e do EP seguinte, quando todos esperavam algo na linha de The Laws of Scourge, com uma sonoridade trabalhada e com a mesma formação, a banda lançou Hate em 1994, disco que acabou sendo motivo de polêmica devido ao uso de bateria eletrônica. O argumento usado como justificativa para a utilização desse recurso foi o fato de, segundo os integrantes do grupo, não existir um baterista no mundo que tocasse tão rápido quanto eles queriam. Lembro-me até hoje de ler essa declaração na revista Rock Brigade e ter ficado louco de curiosidade. Porém, ao ouvir o disco, me decepcionei muito. Os outros dois componentes saíram, e a dupla principal, Vagner e Gerald, fez tudo sozinha com o auxílio de Eugênio “Dead Zone”, que programou a bateria eletrônica e tocou teclados. Penso que se a banda tivesse mantido sua formação e a linha adotada em The Law of Scourge ela teria sido mais do que uma banda cult citada por diversos artistas conhecidos hoje em dia, e sim uma das bandas mais importantes do estilo.
Track list:
1. The Laws of Scourge
2. Piercings
3. Midnight Queen
4. Screeches From the Silence
5. Prelude to a Suicide
6. The Black Vomit
7. Secrets of a Window